Se vocês buscarem os manuais de Psiquiatria vão ler que a característica essencial do Transtorno de Personalidade Borderline é um padrão invasivo de instabilidade dos relacionamentos interpessoais, auto-imagem e afetos, com acentuada impulsividade, que começa na adolescência ou início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos.
Vão seguir lendo sobre os critérios para o diagnóstico, incluindo o medo de abandono (real ou imaginário), relacionamentos instáveis e intensos, alteração de autoimagem, comportamento impulsivo, instável e/ou autodestrutivo e dificuldade para controlar a raiva.
Mas eu quero falar desse transtorno de forma menos teórica. Se quiserem mais informações sobre o Transtorno de Personalidade Borderline, o Manual de Diagnóstico conhecido como DSM-V (APA, 2014) traz informações sobre sintomas e tratamentos, outra boa fonte pode ser o Compêndio de Psiquiatria (Kaplan & Sadock, 2008). Outra, ainda é Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde: CID-10.
Eu quero falar que dou alguns cursos de curta duração sobre Psicopatologia e Avaliação Psicológica, as vezes, em várias cidades brasileiras. Em geral eu gosto muito da troca de experiências. Em um desses cursos eu falei sobre Transtorno Borderline e em um intervalo uma moça bonita e um rapaz alto vieram conversar comigo. Disseram fazer curso de Direito, fizeram algumas perguntas, eu dei opiniões bem pouco otimistas e depois ela me disse que tinha diagnóstico de Borderline e ele era seu namorado.
Eu tinha dito algumas coisas bem pesadas sobre esse diagnóstico e como o foco do curso era psicopatologia em contexto forense, peguei exemplos de casos desse transtorno que passaram por mim profissionalmente e que tiveram envolvimento com infrações legais. Entre essas coisas, eu disse que manter um relacionamento com alguém com esse diagnóstico era muito difícil e que o padrão geral das pessoas com tal transtorno é começar e largar o tratamento várias vezes. Na conversa o rapaz me perguntou "então é melhor largar?". Eu disse a ele minha opinião pessoal e a moça me explicou que ela estava estável, fazia o tratamento direito e que, apesar das dificuldades, estava seguindo a vida. Eu falei para ela como isso era atípico quando comparado com minha experiência profissional e pedi a ela que escrevesse sobre a história dela, porque quem vivencia na pele sabe falar sobre coisas que outros não tem acesso. Talvez a história dela ajudasse outros a ficar em tratamento e conseguir isso também, estudar, namorar, seguir.
Voltei para o hotel pensando muito no episódio e triste por possivelmente ter gerado mais sofrimento pra moça. No dia seguinte ela me escreveu e eu trago, com autorização dela, trechos para cá. Arrumei alguns aspectos ortográficos, mas não alterei nada do conteúdo. Essa é a história da J.:
"Quando tinha uns 14 anos fui diagnosticada com bipolaridade, e o medico com quem eu relizava tratamento receitava Depakote e Carbolitium. Essas substacias não sutiam muito efeito sobre mim, não eram muito estabilizadoras, conseguiam conter em media uns 20% e eu vivia oscilando. Meus pais e irmão nunca sabiam como eu iria acordar e isso era muito triste para a minha familia! Tentei suicidio muitas vezes, tive relacionamentos complicados e quase nenhuma amizade durante minha adolescencia inteira.
Eu sempre estava ao ápice das minhas emoções, não conseguia controlar meus impulsos, minha vida era uma corda bamba no meio de um precipício .... era viciada em tudo que pudesse me causar alguma adrenalina para poder me sentir melhor, mas logo em seguida me sentia péssima, e como sempre odiava magoar as pessoas e odiava a ser controlada ou rejeitada.
Chegando proximo ao natal [de um ano que ela não diz qual] eu passei muito mal o litium [medicamento] me intoxicou e eu não me movia, não falava e estava péssima. Precisei ser hospitalizada.
Minha mãe achou que estava na hora de procuramos uma segunda opnião médica. (...), mas antes de procurar um novo médico tive crises catastróficas de quase derrubar a casa e de desestruturar a família. Chegando a consulta com o novo psiquiatra, falei tudo o que sentia e ele me olhou e rapidamente me disse 'leia aqui o que você possui: Transtorno de Personalidade Borderline'.
No começo não foi fácil, eu não queria ir para escola, não queria enfrentar os problemas, larguei várias vezes os remédios, larguei psicólogos... mas meus pais me incentivavam e me diziam que era melhor eu ir e que eu iria me sentir melhor. No começo os remédios me davam muito sono, então demorou um certo tempo para que o médico conseguisse AJUSTAR UMA DOSE NA QUAL EU NAO SENTISSE TANTO SONO, MAS QUE TAMBÉM SERIA EFICAZ.
Atualmente para dormir tomo em formula manipulada de topiramato 75 mg, valproato sodico 250 mg, clozapina 25 mg, clonazepam 0,25mg, flouxetina 40 mg, cloridrato de ciclobenzaprina 5mg. Para não ficar sonolenta durante o dia, com aquela letargia tomo remédios manipulados de topiramato 50mg, divalproatosodio 250 mg, fluoxetina 20mg, biperideno 20mg e alprazolam 0,25 mg.
E sobre eu não querer parar com os remédios, foi uma decisão difícil, mas percebi que estava me afundando em um poço que não iria conseguir voltar. Estava compulsiva, agressiva, melancólica. Tudo me irritava ou me ofendia profundamente, eu estava sofrendo muito! Então decidi que pior do que estava não dava para ficar e dei uma chance para os remédios. Por mais que outra personalidade dentro de mim dissese que não queria depender de remédios, fui firme e continuei. Quando pensava em desistir chorava, gritava, mas meus pais me confortavam. Eu queria sentir na pele a dor que eu sentia na alma, meu cérebro estava cansado, meu corpo não aguentava mais lutar, eu estava cansada de ser dominada. Então concordei em tomar remédios e fazer o tratamento e, devagar, fui construindo uma casinha de tijolos para eu abrigar a minha fúria e minha paciência inexistente... os piores tipos de pensamentos já passaram pela minha cabeça e agradeço a Deus por nunca ter tido coragem para realizá-los.
Me sinto muito bem com essas medicações, tenho muito suporte da minha psicóloga, vou em todas as sessões. (...). Faço acompanhamento com neurologista e com psiquiatra, posso dizer que não sou uma pessoa agressiva, que hoje já não sinto vontade de suicidar, mas sinto muita vontade de desistir. Todas as manhãs tenho essa vontade, mas luto comigo mesma, pois vejo o sacrificio que meus pais fazem para me ver bem, meu namorado, meu irmão, todos estão me apoiando, seria injusto com eles eu desistir de mim, então eu continuo tentando. Posso te dizer que não tenho o controle de 100% mas uns 70% eu consigo e te digo isso já é muita coisa, já é uma vitória e uma coisa que eu tenho por experiência própria é que eu jamais paro de tomar meus remedios por conta.... os efeitos colaterais são piores... você parece um viciado em algum intorpecente quando volta... Por opção própria não bebo, não fumo, tento levar uma vida normal apesar do furacão de emoções e impulsos que se passam aqui dentro."
Esse é um depoimento de muita coragem, de uma pessoa que vivencia uma luta diária com algo que está nela e graças aos céus está vencendo (continue assim flor). Agradeço demais esse seu gesto de compartilhar conosco, de se expor. Esse é um transtorno em que há sofrimento para todos os envolvidos. Transtornos de personalidade são difíceis de tratar e exigem muito das pessoas que os possuem e dos que convivem com eles. Mas relatos assim dão esperança de que existe controle, e vida além, mesmo quando você tem um diagnóstico psiquiátrico considerado grave. Por isso achei tão importante compartilhar a história dessa moça.
Referências:
Associação de Psiquiatria Americana. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - 5ª edição. Porto Alegre: Artmed, 2014.
Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde: CID-10 Décima revisão. Trad. do Centro Colaborador da OMS para a Classificação de Doenças em Português. 3 ed. São Paulo: EDUSP; 1996.
SADOCK, Benjamin J., SADOCK, Virgínia A. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. 9.ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.